sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Adeus ano velho

Fim de ano, momento de balanços e planejamentos. Angústias de uns, porque não foi possível cumprir o que haviam definido como meta; alegria de outros, porque o ano foi um sucesso. Indiferença de muitos, ainda perdidos no rio da vida, eternamente seguindo a corrente que leva sabe-se lá para onde... 

Diante desse final de ciclo, também eu estou predisposta a avaliar o ano e refletir sobre minhas atitudes, meus comportamentos, minha passividade diante de certas circunstâncias que me despertam o medo e a insegurança, minha ansiedade evocada pelas situações que fogem ao meu controle. Também eu estou pronta não a fazer lista de boas intenções para depois arquivá-las numa gaveta, como diria Drummond. Mas a planejar a próxima etapa, de forma a organizar os pensamentos, as ideias, concentrar as energias e não desperdiçar oportunidades. Melhor ainda: observar o fluxo da minha vida, meus desejos, as circunstâncias e decidir com base nas possibilidades que se apresentam, assim como respeitando as intuições, o feeling... 

Dito isso, diante dos 11 meses que se passaram, sou honesta com a vida. Preciso fazer a ela um agradecimento. É claro que desejos não me faltam; entusiasmo sobra. Quero crescer cada vez mais, há muito espaço em mim para preencher de beleza. E, como disse Adélia Prado, para o desejo do meu coração o mar é uma gota

Porém, independentemente disso, sou profundamente grata à vida por todas as experiências que invadiram meu ano de 2010. Perdas, amor, surpresas, atritos, afeições, novas pessoas, velhas pessoas renovadas, sensações, poesia, amparo do Alto, confiança, desapego. A vida entrou em meus poros de todas as formas e hoje cheguei à conclusão, conversando com Alcione, de que não preciso de nada. Tudo, agora, é acréscimo de misericórdia. 

Não, não sou rica (pelo menos não de dinheiro), tenho inúmeros problemas de saúde e enfrento dezenas de desafios todas as semanas. Mesmo assim, permitam-me ser grata. Tudo que vivo faz de mim a pessoa que sou. 

Compartilho com vcs dois belos poemas que me seguem faz anos, mas que só agora tomam, para mim, pleno sentido, porque não me falam só ao intelecto. Estão inscritos em mim como tatuagem.



“E então eu peço... pela minha simplicidade. 
E agradeço ao vento que faz dançar minhas cortinas.
E ao tempo que me permite existir neste exato momento.
Peço que nunca lamente o que podia ter e que se perdeu por caminhos errados, e agradeço pelas minhas coisas humildes, minha casa pobre, a chuva no telhado, o feixe de lenha sob o fogão de taipa, que acende durante a noite o fogo alegre da minha casa…”
(Desconheço a autoria)

Um quase nada basta

Quão belo e fácil construir ventura,
Fruir da existência encantos e alegria!
Basta, na vida caseira, dia a dia,
Recolher o prazer de cada conjuntura,
Sem loucas ambições nem vã filosofia.

Eis tudo (… e é quase nada!):
Dispor de uma sala aconchegada
E o conforto da cadeira, ao lado do fogão;
À nossa frente, uma hora de lazer
E, mesmo ali, à mão,
Esse livro tão lindo, que adoramos ler.

Não será isso bastante?
Olha, assomando à janela, essa nesga de beleza:
O canto do relvado, ervinhas, um ramo verdejante.
O passadio sóbrio, pedido à natureza:
Ovos, fruta, leite fresco, umas torradas
Com a xícara de chá. E, reservadas
Pra o inverno, umas peças de agasalho,
Botas fortes, de arrostar com o temporal,
A velha arca, provida de bragal,
E um modesto leito ao termo do trabalho.

Alguém ousaria pedir mais?
Vem relembrar, Senhor, essa arte tão esquecida,
— O jeito de tirar satisfação da vida —
Mesmo ao mais indigente dos mortais:
O cobiçado dom de grandes e pequenos,
De saber desfrutar as coisas de somenos
E amar os prazeres simples e banais.
(Escrito por monges portugueses. Ficarei devendo o nome do livro onde encontrei este belo poema.)
Atualização em 31/12/2010: Extraído do livro Luz para hoje. Editorial Franciscana. Tradução de A. Vaz Mota do inglês Light for today. Sem menção de autoria.



2 comentários:

  1. Esse tipo de reflexão é muito interessante.
    Acho que nenhum instante da nossa vida pode ser considerado ruim, mesmo os mais dolorosos.Qualquer momento, que faça parte da gente é sagrado, pois faz parte da vida, e tem seu lado legal e outro não tão bacana assim.E mesmo que a maior parte seja realmente ruim, sempre acarretam em situações e vivências maravilhosas.O resultado disso?Experiências que nos fazem muito mais felizes que antes.Felicidades que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo.
    Engraçado isso, mas é bastante legal.Mostra o quanto Deus é misericordioso com a gente.Mesmo em momentos ruins, que sempre vamos ter, e errando bastante, como sempre vamos errar; Ele nos dá ensinamentos que nos mostram o quanto vale a pena viver acima de qualquer situação ruim em nossas vidas.
    Obrigado pelo texto!
    Abração...

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  2. É isso mesmo que vc disse, Octávio: há coisas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo. Mas o que é "dar certo", não é mesmo? Nossa visão é muito limitada e condicionada pelos nossos medos...
    Obrigada pelo comentário!

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