domingo, 28 de novembro de 2010

A vida não é só isso que se vê*

Alcione me encaminhou um e-mail contendo frases de uma campanha publicitária do Citibank em SP. Dei uma googlada e confirmei que o fato é verídico: foi mesmo uma campanha desse banco, à época em que outdoors ainda podiam ser vistos em Sampa.


As frases são poderosas e merecem uma paradinha para reflexão. Particularmente se vcs, como eu, vivem o cotidiano em alta velocidade, achando que assim é possível esticar o dia ou abraçar o mundo com as pernas.
De qualquer modo, ainda consigo ir para a varanda nas noites de lua cheia, me envolver com a energia do céu iluminado (como disse Gil, se o luar existe só pra ser visto, se a gente não vê não há). E receber amigos para um vinho ou um chá... sair com eles para um cinema, viajar com quem eu amo, visitar minha mãe, mimar Gabriel. Pensando bem, tenho salvação. 
E você, me conte: como anda sua vida?

Crie filhos em vez de herdeiros.
Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete.
Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela. 
Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama.
Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas.
Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho? Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos.
Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas… e quem sabe assim você seja promovido a melhor pai do mundo!
Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos.

(Citibank)
*Atualização em 30/11/2010 - Peguei emprestada uma frase de uma linda canção para dar título a este post. Vamos aos créditos: a letra é de Hermínio Bello de Carvalho, e a música de Paulinho da Viola. Trata-se de Sei lá, Mangueira, uma homenagem ao morro da Mangueira:

Mangueira, teu cenário é uma beleza que a natureza criou
Vista assim do alto mais parece um céu no chão
Sei lá, em Mangueira a poesia feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar pra se entender tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê

É um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar
Sei lá, não sei não sei se toda a beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração

Em Mangueira a poesia num sobe-desce constante
Anda descalça ensinando um modo novo da gente viver
De pensar e sonhar, de sofrer

Sei lá não sei / Sei lá não sei não
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Voando sem asa, com a Bachiana n° 5


Para interromper um pouco a correria do dia a dia e se revitalizar, envolva-se com as vibrações da belíssima Bachiana n° 5, de Heitor Villa-Lobbos, nesta excelente e tocante interpretação. E voe sem asa, aconselhado por Manoel de Barros: "Poesia é voar fora da asa".




Interpretação:
Amel Brahim Djelloul (soprano - foto) Gautier Capuçon (cello) 
Orchestre Du Violon Sur Le Sable (Les films Jack Febus)











segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Buscando inspiração em Gandhi

Desde adolescente Gandhi me inspira com seus gestos e palavras. Especialmente nos momentos mais desafiadores, quando não me encontro fortalecida o bastante para defender os ideais em que acredito.


Não raras vezes, também falei de Gandhi para evocar novamente o brilho nos olhos de pessoas que lutavam por algum ideal, mas se encontravam desanimadas diante de caminhos que se apresentavam ásperos.


Em certos momentos, olho para a frente e vejo uma longa estrada que deve ser percorrida passo a passo, em um ritmo que nem sempre me agrada, porque aos meus olhos parece lento. E é só quando dou mais um passo que vejo o local em que pisarei no momento seguinte. Em outras ocasiões, me aborreço com resistências que outras pessoas impõem, por sua imaturidade e também por muitas outras razões.


Esta semana Gandhi voltou a me fazer companhia, sussurrando em meus ouvidos palavras de incentivo. Revejo cena a cena o incomparável filme sobre sua vida, magistralmente dirigido por Richard Attenborough e interpretado por Ben Kingsley. Cena a cena, o altivo rapaz que foi para a Inglaterra estudar direito e, ao retornar, resolve trabalhar na África do Sul -- em uma época em que hindus não podiam andar na mesma calçada que cristãos, sob o risco de serem atirados à sarjeta --, vai cedendo lugar a um homem firme, ponderado, compassivo, que vê todas as pessoas como filhas do mesmo Pai. Portanto, merecedoras de igual respeito e das mesmas oportunidades.


Também volta a me acompanhar o livro A magia dos gestos poéticos, escrito por Rubem Alves, como se ele fosse médium de Gandhi. Merece ser lido pela poesia e pela visão que o ilustre escritor, teólogo, educador e psicanalista tem daquele que foi principalmente um grande educador -- de uma nação.


É nesse livro que leio o seguinte trecho, que "registra" reflexões do grande líder político e espiritual da Índia, em um momento crítico, quando massacres aconteciam no país, envolvendo muçulmanos e hindus. São frases que me recordam que o ideal move a vida. Compartilho essa lindeza com vcs, mas especialmente com meus companheirinhos da Diretoria da Casa de Everilda. Que estas palavras possam nos inspirar cotidianamente.


"Voltei a fazer o que eu sempre fizera. Gestos que trouxessem de volta a mansidão...
Fui andar pelas aldeias. Levantava-me às 4 horas da manhã. Conversava e rezava. Acolhia em meus momentos de prece tanto hindus quanto muçulmanos, ou pessoas de quaisquer outras religiões que assim o desejassem. Lia os seus textos sagrados. Eu sabia que a divindade se revela em muitos lugares diferentes... (...) Sei muito bem que aquilo que eu fazia estava longe do realismo político. Eu desejava resultados, é claro. Mas, mesmo que eu soubesse que tudo seria inútil, teria feito as mesmas coisas. Há gestos que não podem ser evitados. Eles brotam do fundo, como se fossem o perfume de uma flor. Era assim que eu sentia aquilo que estava fazendo. Meus gestos não eram métodos para atingir um objetivo. Eram partes do meu próprio ser. Eles não surgiam de uma análise realista da situação. Ao contrário, eu me punha a escutar a minha voz interior, e aquilo que ela dissesse eu tomava como profecia. E assim fui, encontrando forças e esperanças em pequenos sinais de bondade que surgiam aqui e ali, quando hindus e muçulmanos se arrependiam e reencontravam o caminho da amizade."


A magia dos gestos poéticos, Rubem Alves, pp. 108, 109


Tenho esperanças de que chegará o dia em que nossos gestos em busca de um mundo melhor e mais justo serão parte de nosso próprio ser... E serão tão fáceis como respirar.




Atualização em 23/11/2010:


Encontre ótimos textos sobre A atualidade do pensamento gandhiano na página preparada pela Associação Palas Athena:
http://www.comitepaz.org.br/Pensar_Gandhi.htm


Mais textos sobre a construção de uma cultura de paz em:
http://www.comitepaz.org.br/mapa_do_site.htm



domingo, 21 de novembro de 2010

Buenos Aires de cadeira de rodas - Parte 2

O post sobre Buenos Aires está fazendo tanto sucesso que decidi postar mais algumas fotos e comentários sobre a viagem...


Grande parte desse sucesso devo à jornalista brasileira Gisele Teixeira, que mora em Bs As. Ela viu o post e publicou em seu blog um pequeno artigo sobre minhas experiências, e até colou o link para um vídeo do YouTube com uma apresentação de tango em cadeira de rodas. Muito lindo e inspirador! A partir disso, vários leitores dela passaram por aqui... Pelo visto, o blog, que tem o belo e inspirado nome Aquí me quedo, é um tremendo sucesso, e não é para menos, porque ele é bem  interessante e muito útil para quem curte a cidade. Se é o seu caso, não deixe de conferir!


Então, vamos às fotos, enfatizando a bela arquitetura que encontramos em muitas e muitas construções do centro da cidade.


Em primeiro lugar, o belíssimo Banco de La Nación Argentina, cuja sede fica ao lado da Casa Rosada: 






A Catedral Metropolitana também é muito bonita. Fica ao lado da Plaza de Mayo e tem uma rampa na lateral direita, o que permite o acesso de cadeirantes. Independentemente da sua opção religiosa, ela vale uma visita. 





Na Avenida de Mayo, fica o Palácio Barolo, cheio de analogias e referências à Divina comédia, de Dante. Está pertinho do Congresso... Atenção ao horário das visitas guiadas. 






Muito bonito também é o edifício do Congresso, assim como as esculturas dispostas na Plaza de Mayo, em frente. Lamentavelmente, no dia em que lá estivemos, tudo estava muito sujo e mal cuidado: restos de cigarro, papel, etc., formavam uma imagem deprimente cercando um local de tamanha beleza arquitetônica.






E, na esquina da Calle Florida com Avenida Córdoba, encontramos este belo prédio:






Portanto, é necessário atenção ao andar pelo centro de Buenos Aires, para não perder estas maravilhas...


No próximo post, a arquitetura da Recoleta.


(Fotos de Laura Martins e Ulysses Martins)



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tempo, compositor de destinos

Cheguei em casa hoje abafada.


Coisas se revolvendo, se movimentando, se deslocando em meu coração. Um aperto sem nome. E eu, que sempre quero explicações para tudo, me vi angustiada por não conseguir perceber a origem desse desconforto.


Foi então que deparei com esta frase da Ana Jácomo, pessoinha bonita que percebe o cotidiano de forma tão lúcida:


"A gente, às vezes, se afoba e se abafa desnecessariamente. Os mais lindos bordados da vida são feitos com os fios de delicadeza que respeitam a sabedoria amorosa do tempo do coração." 
Ana Jácomo


Deus, obrigada por mais esse lembrete! Novamente  havia me esquecido de que a vida tece seus fios mesmo quando não os vejo e não entendo o processo. Posso baixar a bola da ansiedade mais uma vez, respeitando o tempo de que todas as coisas necessitam para acontecerem ou se esclarecerem.


E então me lembrei da frase que a Alcione me revelou certo dia, em que meu coração estava mais abafado que nunca. É de Emmanuel e está no livro Pão nosso. Jamais vou esquecê-la, pois me indicou um novo sentido para os fatos.


"O tempo é o nosso explicador silencioso"


Ah, que mão fechada a minha... Transcrever só uma parte da frase... Vamos a ela completa:


"Aguarda, porém, confiante, a passagem dos dias. O tempo é o nosso explicador silencioso e te revelará ao coração a bondade infinita do Pai que nos restaura a saúde da alma (...)” 
Emmanuel (psicografia de Chico Xavier)


Silenciosamente, vai o tempo tecendo e bordando a colcha da existência. Quando, aguardando um certo tempo, olho de novo, o bordado já faz sentido. Mas esperar é tão difícil. Tentamos negociar com o Senhor Tempo, queremos manipulá-lo, experimentamos "métodos" de fazer os frutos desabrochar prematuramente. 


Quanta ingenuidade na rebeldia! Prossegue o Senhor Tempo ousadamente, pouco se importando com as vãs tentativas de sabotar seu paciente e persistente trabalho.


Por causa disso, hoje estou achando que é mais sábio abrir mão da rebeldia e copiar a atitude que se revela na canção Oração ao tempo, do Caetano:


"Entro num acordo contigo"
Caetano Veloso


É, tempo... Vamos fazer um acordo de paz? Você já me propôs isso há longa data, agora resolvi aceitar...



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cócegas na alma

"E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável." 
Clarice Lispector


Dias atrás escrevi sobre passar além da dor. Preciso ser honesta o suficiente e compartilhar com vocês que este ano -- paradoxalmente? -- também foi um dos mais felizes dos últimos tempos. Tenho experimentado pequenas e grandes alegrias vindas de fora e de dentro. E de cima... Alegrias que me fazem cócegas por dentro, como se lá houvesse dezenas de borboletas.


"You give me butterflies."


Fotografia de Olivia Bell

Minhas alegrias vêm principalmente do fato de estar apaixonada. Por tanta coisa e por tanta gente! Estou preenchida por Deus, que é o que quer dizer entusiasmada.


Entusiasmo (do grego en + theos, literalmente 'em Deus') originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença de Deus. (Wikipédia)




Mas eu seria injusta se deixasse de considerar que a maior parte dessas alegrias me têm sido trazidas pela afeição, pelo carinho, pelas atenções com que me cercam corações queridos. E, em contrapartida, pelo amor e pela ternura com que tenho feito o possível para envolver essas pessoas tão importantes para mim.


Meu carinho a vcs que têm povoado minha vida de doçura. (Sem citar nomes... Os daqui e os de lá. Os de perto e os de longe...)






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