quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tem que passar além da dor

Estamos caminhando para o fim de outubro e já posso avaliar que este foi, para mim, um dos anos mais desafiadores dos últimos tempos.


Em 2010 a vida me trouxe oportunidades de rever posturas, princípios e decisões. Algo muito ameaçador, considerando que nos sentimos mais seguros ancorados nos tais dos princípios. Eles guiam nossas decisões e determinam nossas posturas, muitas vezes de forma mais contundente que nosso lado racional. E costumam ser, nada mais, nada menos, que valores e comportamentos herdados da família, dos amigos, das pessoas importantes que passaram por nós. Quantas e quantas vezes estão distantes de ser produto da nossa reflexão? Quantas vezes, na verdade, constituem a materialização de nossos medos?


Pensando nisso, volto meus olhos aos primeiros meses de 2010 e revejo os desafios que se apresentaram desde então, desencadeando importantes reflexões. Revi valores, chequei posturas, redecidi muitas coisas. Mudei. Não há dúvida de que cresci muito e sou mais feliz hoje. Mas doeu. E ainda dói.


Doeu porque durante uma temporada, pela impossibilidade de recorrer às antigas âncoras (amarras?), me senti insegura e desamparada. Onde me apoiar? Uma pessoa preciosa me respondeu: no movimento. Borboletas voam porque se apoiam no movimento das asas. E, claro, há também os nossos valores mais profundos, produto da reflexão constante, temperados pela experiência, que são consolidados pela maturidade. Estes nos trazem certezas importantes nesse período de noite escura da alma: a certeza de que não estamos sós, nem desamparados, por mais que possamos nos sentir assim; a certeza de que tudo na vida muda, nada é permanente; a certeza de que a força da natureza está também em nós, colaborando para o desabrochar.


De janeiro para cá, muitas mudanças depois, me sinto fortalecida, mais segura, mais confiante nas condições que minhas pernas têm de me levar por estradas de crescimento. E me recordo de que, medrosa, estive por recusar muitas oportunidades, temendo quedas, frustrações, desencantos e sei lá o que mais. Me recordo também de que muitos amigos me apoiaram neste aprendizado do andar vacilante, me encorajando a confiar. A eles sou eternamente grata.


Esta semana chorei de alegria, pois acabo de romper alguns cordões de linhas de chegada em desafiadoras maratonas. Ao chegar em casa na terça-feira, me lembrei imediatamente da frase de um poema de Fernando Pessoa: Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.


O Bojador é um cabo localizado na costa ocidental da África, na altura das ilhas Canárias. Durante séculos de navegações, ele marcou o limite do conhecido e do explorado. De acordo com a Wikipédia, o desaparecimento de embarcações que haviam tentado contorná-lo levou ao mito da existência de monstros marinhos e à crença de que ele era intransponível. Era conhecido também como Cabo do Medo ou Cabo Não. A enciclopédia diz também que "A passagem do Cabo Bojador foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa. Derrubou os velhos mitos medievais e abriu caminho para os grandes descobrimentos".


Essas explicações demonstram a pertinência dos versos de Fernando Pessoa. Passar além do Bojador equivale a enfrentar os perigos que o desconhecido pode guardar; mas, sem isso, como triunfar? Como romper as amarras que entravam nossa felicidade? E o poeta acrescenta que muitas lágrimas foram derramadas enquanto os portugueses saíam para conquistar o mar. O preço não foi baixo. Então ele pergunta: Valeu a pena?


Vocês conhecem a resposta? Transcrevo o poema completo, uma obra-prima, para que possam saboreá-lo enquanto a descobrem...







Mar Português
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.






5 comentários:

  1. Belo post "inspirador" deste seu ano "desafiador", Querida Laura!!!

    E quanta generosidade em compartilhar este momento...

    Também revendo atitudes, reavaliando posturas, repensando a vida sempre em busca da tão sonhada reforma íntima, me fez lembrar o techo de uma música que tenho ouvido recorrentemente:

    "mas que bobagem, já é tempo de crescer!"

    Porém, como é difícil se libertar destas "amarras" mentais...

    Saudades de ti!

    Gde bj,

    PH

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  2. PH, obrigada pelo incentivo. Na verdade, a generosidade é toda de vcs, que leem os posts e ainda fazem comentários carinhosos!

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  3. Querida Laura, tudo isso é muito lindo, apesar de toda dor quase sempre necessária em nosso dificil processo de crescimento. Me identifiquei totalmente com suas palavras pq foi exatamente assim que me senti nos 2 últimos anos!
    beijos,
    Denise

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  4. Laura,
    a sua reflexão é muito importante, no corre corre
    da vida, nos esquecemos destas amarras. Para alguns é segurança e para outros pura infelicidade.
    Quero passar além do bojador.
    Bjs,
    Eliza Laura

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  5. Denise, eu acompanhei um pouco da sua dor e fico feliz por hoje vc ter a percepção da beleza dos processos. E que bom que hoje vc está muito melhor!

    Eliza Laura, eu também quero passar além do Bojador. Tenho mais alguns pela frente (aliás: fazem parte da vida!). Mas tenho medo diante de todos eles. Alcione me diz que é natural; o medo faz parte dos processos e pode ser sinal de prudência: não é falta de coragem...

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