sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nossos pais

Quem me encaminhou estas tirinhas foi o Marcos Moutinho. Acho muito importante me referir àqueles que colaboram com meu/nosso crescimento. Afinal, são instrumentos da vida e merecem ser citados como protagonistas deste blog...


Infelizmente nada sei dizer sobre a autoria destas inspiradas imagens e do texto. Se alguém souber, por favor me informe.


As tirinhas me encheram de ternura, pois minha mãe está com seus 66 68 anos de muito empenho, esforço, dedicação e enfrentamento de grandes desafios. Se hoje me considero uma mulher forte, muito devo a ela, que me ensinou a enfrentar as tempestades com firmeza e fé. Agora ela é uma simpática senhora que se defronta com os esquecimentos, a lentidão, a resistência a novidades, o cansaço. E eu vivo o desafio de compreender e aceitar seus limites. Temos a fantasia de que nossos pais são eternos heróis, para os quais o tempo não passa. Serão jovens e fortes eternamente. Mas não é assim a realidade, não é mesmo? E ela dói.


Fiquem, então, com a delicada percepção deste autor, por ora, desconhecido. Sou grata a ele.




Quando você era bem pequeno (a)...



eles gastavam horas lhe ensinando a usar talheres nas refeições



ensinando você a se vestir, amarrar os cadaos dos sapatos, fechar os botões da camisa



Limpando-o quando você sujava suas fraldas, lhe ensinando a lavar o rosto, a se banhar, a pentear seus cabelos


lhe ensinando valores humanos.



Por isso...



quando eles ficarem velhos um dia... e seria bom que todos pudessem chegar até aí (não preciso explicar, não é?)




quando eles começarem a ficar mais esquecidos e demorarem a responder...



não se chateie com eles...





quando eles começarem a esquecer de fechar botões da camisa, de amarrar cadarços de sapato...





quando eles começarem a se sujar nas refeições...



quando as mãos deles começarem a tremer enquanto penteiam cabelo...




por favor, não os apresse... porque você está crescendo aos poucos, e eles envelhecendo...






basta sua presença... sua paciência... sua generosidade... sua retribuição...





para que os corações deles fiquem aquecidos...




se um dia eles não conseguirem se equilibrar ou caminhar direito...



segure firme as mãos deles e os acompanhe bem devagar respeitando o ritmo deles durante a caminhada... da mesma forma como eles respeitaram o seu ritmo quando lhe ensinaram a andar...



fique perto deles... assim como...



eles sempre estiveram presentes em sua vida, sofrendo por você... torcendo por você...

e vivendo POR VOCÊ.




quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Amarras mentais

Complementando o post anterior, compartilho uma imagem que Ulysses me encaminhou esta semana. Preciosa.


"As amarras que nos impedem de sermos livres são mais mentais do que físicas."


Tem que passar além da dor

Estamos caminhando para o fim de outubro e já posso avaliar que este foi, para mim, um dos anos mais desafiadores dos últimos tempos.


Em 2010 a vida me trouxe oportunidades de rever posturas, princípios e decisões. Algo muito ameaçador, considerando que nos sentimos mais seguros ancorados nos tais dos princípios. Eles guiam nossas decisões e determinam nossas posturas, muitas vezes de forma mais contundente que nosso lado racional. E costumam ser, nada mais, nada menos, que valores e comportamentos herdados da família, dos amigos, das pessoas importantes que passaram por nós. Quantas e quantas vezes estão distantes de ser produto da nossa reflexão? Quantas vezes, na verdade, constituem a materialização de nossos medos?


Pensando nisso, volto meus olhos aos primeiros meses de 2010 e revejo os desafios que se apresentaram desde então, desencadeando importantes reflexões. Revi valores, chequei posturas, redecidi muitas coisas. Mudei. Não há dúvida de que cresci muito e sou mais feliz hoje. Mas doeu. E ainda dói.


Doeu porque durante uma temporada, pela impossibilidade de recorrer às antigas âncoras (amarras?), me senti insegura e desamparada. Onde me apoiar? Uma pessoa preciosa me respondeu: no movimento. Borboletas voam porque se apoiam no movimento das asas. E, claro, há também os nossos valores mais profundos, produto da reflexão constante, temperados pela experiência, que são consolidados pela maturidade. Estes nos trazem certezas importantes nesse período de noite escura da alma: a certeza de que não estamos sós, nem desamparados, por mais que possamos nos sentir assim; a certeza de que tudo na vida muda, nada é permanente; a certeza de que a força da natureza está também em nós, colaborando para o desabrochar.


De janeiro para cá, muitas mudanças depois, me sinto fortalecida, mais segura, mais confiante nas condições que minhas pernas têm de me levar por estradas de crescimento. E me recordo de que, medrosa, estive por recusar muitas oportunidades, temendo quedas, frustrações, desencantos e sei lá o que mais. Me recordo também de que muitos amigos me apoiaram neste aprendizado do andar vacilante, me encorajando a confiar. A eles sou eternamente grata.


Esta semana chorei de alegria, pois acabo de romper alguns cordões de linhas de chegada em desafiadoras maratonas. Ao chegar em casa na terça-feira, me lembrei imediatamente da frase de um poema de Fernando Pessoa: Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.


O Bojador é um cabo localizado na costa ocidental da África, na altura das ilhas Canárias. Durante séculos de navegações, ele marcou o limite do conhecido e do explorado. De acordo com a Wikipédia, o desaparecimento de embarcações que haviam tentado contorná-lo levou ao mito da existência de monstros marinhos e à crença de que ele era intransponível. Era conhecido também como Cabo do Medo ou Cabo Não. A enciclopédia diz também que "A passagem do Cabo Bojador foi um dos marcos mais importantes da navegação portuguesa. Derrubou os velhos mitos medievais e abriu caminho para os grandes descobrimentos".


Essas explicações demonstram a pertinência dos versos de Fernando Pessoa. Passar além do Bojador equivale a enfrentar os perigos que o desconhecido pode guardar; mas, sem isso, como triunfar? Como romper as amarras que entravam nossa felicidade? E o poeta acrescenta que muitas lágrimas foram derramadas enquanto os portugueses saíam para conquistar o mar. O preço não foi baixo. Então ele pergunta: Valeu a pena?


Vocês conhecem a resposta? Transcrevo o poema completo, uma obra-prima, para que possam saboreá-lo enquanto a descobrem...







Mar Português
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.






quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Diferentes, graças a Deus!

Há duas semanas assisti ao filme Temple Grandin, que me havia sido presenteado pelo meu irmão Ulysses, sempre se lembrando de mim quando vê bons filmes.

Ouvi falar da autista Temple Grandin, pela primeira vez, há cerca de 15 anos, ao ler o fantástico livro Um antropólogo em Marte, do neurologista e escritor Oliver Sacks, de quem virei fã desde essa época. Um dos ensaios desse livro, exatamente o que dá título à obra, procura descrever -- e compreender -- a vida e as experiências de Temple.

Ela é uma pessoa com quem se pode aprender muitas coisas. Criança, manifestava-se arredia, isolada e agressiva. A mãe fora acusada pelo médico de rejeitar a menina -- daí o consequente autismo.

Arrepia-nos, no filme, o intenso esforço da mãe para despertar os potenciais adormecidos daquela criança, que não tinha condições de lhe retribuir o empenho nem mesmo com um sorriso, nem ao menos com um olhar. A tia teve um papel preponderante em seu desenvolvimento, assim como o professor-cientista, no colégio interno, que a auxiliou a aplicar seu enorme potencial.

As peculiaridades da personalidade autista de Temple a levaram a ser rejeitada, isolada e tratata com ironia e até mesmo com sarcasmo. Como compreender e conviver com uma pessoa que mostra hábitos tão estranhos, que tem a fala desconexa e ímpetos de violência? Nada fácil, se consideramos que a maioria não consegue conviver nem com quem revela uma opinião diferente ou alguns modos de ser pouco usuais...

Entretanto, Temple prossegue sua caminhada rumo à realização pessoal, enfrentando inúmeros desafios. O diretor retrata tudo com mão de mestre. Excelentes atores, bom roteiro, diálogos ricos fizeram com que o filme, produzido para a TV pela HBO, levasse vários prêmios Emmys.

Temple Grandin
A menina isolada se transformou em engenheira, doutora em ciência animal. Enfrentou preconceitos de toda ordem, mas revolucionou a forma como os norte-americanos confinam e abatem o gado. Por quê? Porque sua forma de perceber os fatos possibilitou que compreendesse o comportamento dos animais melhor que qualquer pessoa. Assim, pôde oferecer a eles um tratamento digno e "humano".

Algumas frases do filme para reflexão:


“Eu tinha um dom. Eu podia ver o mundo de um jeito novo. Via detalhes onde outras pessoas eram cegas."
"Somos diferentes, não piores."
"O mundo precisa de todos os tipos de mentes."

Procure conhecer a vida de Temple, lendo o livro de Sacks, as obras que ela escreveu, vendo o filme, assistindo a uma conferência sua no TED. É só googlar e vc encontrará muitas informações...

Não dá pra deixar de considerar que pessoas como Temple são detentoras de uma força e de uma têmpera que não são comuns. São espíritos fortes que vêm nos ensinar lições de profundidade. Veja uma reflexão a respeito:



“Você não obtém porcelana delicada colocando argila ao sol. Tem que pôr a argila ao calor brando do forno se desejar fazer porcelana. O calor quebra algumas peças. A incapacidade quebra algumas pessoas. Porém, uma vez que a argila passe pelo fogo quente ao brando e saia inteira, ela nunca mais poderá ser argila outra vez; uma vez que uma pessoa supre uma incapacidade através de sua própria coragem, determinação e trabalho duro, ela mostra uma profundidade de espírito que você e eu pouco conhecemos.”

Rusk, citado por Freed (1984)




Somos diferentes, todos nós, graças a Deus. E pessoas como Temple ensinam que as diferenças, embora desafiadoras, tornam o mundo mais rico, graças à biodiversidade.

Abraços!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

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